A FALTA QUE EU SINTO DE LIVRARIAS (E a preocupante escassez delas)


Como falei no texto sobre Reginaldo Rossi, "tem coisas que só a mídia física proporciona". Desta vez acrescento que tem coisas que apenas visitas a livrarias proporcionam. Em um próximo texto, contarei sobre como descobri um livro que jamais chegaria até mim de outra forma que não fosse uma visita a um lugar físico. Mas nesse, apenas desabafarei sobre a falta que sinto de livrarias e sebos.

Tem se falado do enfraquecimento de livrarias, tanto físicas quanto onlines, por conta da crescente dominação da Amazon. Muitas campanhas já foram feitas e ainda são reforçadas, para que se fortaleçam as livrarias, sites independentes e espaços físicos destinados a livros.  

Porém o buraco é mais embaixo quando vemos que em uma esmagadora quantidade de cidades brasileiras, tal qual cinemas, não existem mais livrarias. Ou que até existem, mas em situações complicadas (como a que contarei aqui). Isso sem falar sobre o quanto é mais barato comprar na Amazon e toda a questão de preço de livro, mas isso ja é outra conversa.


Pernambuco é um estado que carece de livrarias. Na capital Recife, uma das maiores do nordeste, só existe uma grande livraria no centro (muito mal administrada), um pingo de livrarias de rua, e 3 ou 4 livrarias em shoppings. Se você sair da capital, não encontra mais livrarias pelo estado. Sou de Recife, porém moro atualmente em um péssimo município chamado Paulista (onde os aluguéis são mais baratos). Aqui não tem nenhuma livraria, nem sebo. Moro ao lado do único shopping da cidade, e tudo que ele tem é um daqueles stands que vendem kits infantis, revistas de colorir geradas em I.A., e as mesmas 10 edições da editora Principis. 

Minha pobreza e saúde mental me impedem de sair de casa com frequência, então imaginem a imensa falta que sinto de uma livraria, um sebo decente, um lugar onde eu possa descobrir livros, folear, conversar sobre, pegar em mãos, receber indicações.


Bibliotecas também são espaços que amo (e sinto bastante falta). Mas aí tem outra vibe. Em bibliotecas você faz procuras específicas, tem silêncio, é um ambiente tranquilo. Livrarias são lugares de descobertas, conversas, novidades, encontros, passeios. É lamentável a falta de espaços assim, que vem diminuindo brutalmente em Pernambuco. Tal qual cinemas, livrarias parecem estar destinadas a existirem apenas em shoppings. E em sua maioria, dividindo espaço com papelaria, e tendo funcionários não entendedores de livros (e muitas vezes não-leitores).

No centro do Recife existe a maior livraria do estado. É um espaço grande, que já foi ocupado pela Livraria Cultura, seguida da pernambucana Livraria Jaqueira. Conheci minha companheira lá. Na ocasião, ela compunha um quadro de funcionários incrível, cada um de seus colegas era especialista de seus devidos setores. Mas a gestão parecia não gostar de ter livreiros, e demitiu todos eles, um por um, começando a exigir que fossem vendedores, meros funcionários, e pondo neles a culpa de vendas baixas, quando na verdade a empresa que fazia um péssimo marketing. Aliás, a gestão parece não gostar de ter uma livraria, pois toda a sua atenção é voltada para a parte de café e restaurante do estabelecimento (isso sem mencionar o envolvimento criminoso com a Operação Literatus).


Fico muito triste em dar o resumo da ópera, mas é tudo resultado da destruição que o capitalismo causa. Falta de incentivo a leitura e a pequenos comércios, priorização de tudo menos livro... E a tendência é piorar. Então se você puder, e tiver uma livraria legal perto de você, ajuda a dar uma fortalecida.

Em Pernambuco quase não tem mais.

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