![]() |
| BARRAGEM DE TAPACURÁ E AS RUÍNAS DO COLÉGIO E IGREJA DE SÃO BENTO, EM SÃO LOURENÇO DA MATA |
“...O boato, como se sabe, é o único meio de comunicação que não pode ser controlado pelos poderosos. Não importa o quanto feroz seja a ditadura. Um boato sempre se espalha — sem controle, sem limites, sem censuras.” — Geneton Moares Neto, 1995.
Certo domingo de 2015 ou 2016, estava eu passeando tranquilo com minha irmã, meu cunhado e um amigo. Não lembro qual era o plano, para onde iríamos, o que pretendemos fazer, mas nada disso importava, pois nosso amigo recebeu uma mensagem de sua mãe. A mensagem dizia que estava se espalhando por meios populares, um aviso de que, por saber que seria em breve impitimada, nossa presidenta Dilma Rousseff havia liberado um valor adiantado, referente ao que sobraria de seus anos de governo, nas contas de quem recebia o benefício Bolsa Família. E que esse valor só poderia ter sido sacado naquele dia. Não éramos jovens muito entendidos de política na época, porém dava pra entender que aquilo era falso. Mas de tanto insistir, a mãe de meu amigo o fez procurar um caixa eletrônico para sacar o tal valor. Ao procurar por um, vimos a consequência dessa mensagem. Pessoas em todos os shoppings, postos e lugares onde tivesse um caixa eletrônico, verificando suas contas. O que mais me impressionou foi ver filas imensas em frente a agências bancárias. Era domingo e todos os bancos estavam fechados. Mas as pessoas insistiam em esperar, chamar, solicitar, quebrar vidros, portões. As pessoas estavam desesperadas por conta de uma informação claramente falsa. Mas quando é o dinheiro que sustenta sua família que está em jogo, a já falta de raciocínio lógico da população, da lugar a uma urgência, um sentimento de vida ou morte. E conto isso para exemplificar como não é difícil fazer com que uma quantidade enorme de pessoas acreditem em um boato besta. Existem diversos exemplos incríveis aqui mesmo em Pernambuco, mas quero falar sobre um específico que também vivenciei.
Voltamos no tempo para o início da década de 2010. Eu estava no ensino médio, tudo estava tranquilo, quando um ar pesado e de tristeza tomou conta da escola. “Saiam com calma, vão para suas casas, fiquem com suas famílias. Tapacurá estourou!”. Muitos de nós alunos nunca havíamos ouvido aquele nome, mas entendemos que era uma represa, e fomos pra casa com medo que uma enorme onde nos atingisse, e todos morressem ainda naquele dia. É claro que aqui também não fazia sentido, mas o sentimento de certeza que em todos, deixou um desespero contido, que marcou todos os moradores do litoral pernambucano, como uma lenda urbana lembrada até hoje.
Esse último caso não veio do nada. Em 1975, Recife foi atingida pelo o que foi a maior enchente do século XX. A água cobriu mais de 80% da cidade, invadindo seus principais bairros, deixando mortos, feridos e desabrigados. Foi após isso, que se iniciou a construção da Barragem de Carpina, que foi inaugurada em 1978, para conter as águas do rio Capibaribe. Ou seja, já não havia confiança na barragem pré existente, que você já deve imaginar o nome. E ainda em 75, poucos dias após a cheia, se espalhou o boato de que Tapacurá estourou. Mas por que isso aconteceu? E por que aconteceu duas vezes? E por que as pessoas acreditaram?
40 anos atrás, a barragem passava por problemas estruturais, que não se resolveram até hoje. Por isso, quando em 2011 houve uma cheia em Recife, mesmo com internet, redes sociais, e toda uma comunicação melhor, a mesma coisa aconteceu. E as pessoas acreditaram da exata mesma forma.
O livro TAPACURÁ: VIAGEM AO PLANETA DOS BOATOS, de Homero Fonseca, publicado pela Editora Cepe em 2011, conta de forma maravilhosa todo o caos apocalíptico que o boato causou na cidade. Como o livro é raro, li uma versão digital que baixei na internet. Porém recomendo muito a leitura. O jornalista narra de forma primorosa o que daria um excelente filme de catástrofe. Na obra, Homero também analisa o tema “boato” em si, outros boatos que geraram pânicos históricos, e conta muito sobre o Recife, sobre jornalismo, comunicação e política urbana.
Conclusão 1: Acho incrível como as pessoas acreditam fácil em boatos, por mais ridículos que sejam.
Conclusão 2: Editora CEPE, relance esse livro e me deixe adapta-lo para quadrinhos!

Nenhum comentário:
Postar um comentário